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quarta-feira, 10 de maio de 2017

MEIO AMBIENTE | Rio Amazonas também está assoreado, diz geólogo do Amapá

Especialista diz que o rio-mar está invadindo lagos e igarapés, com danos irreversíveis para a natureza, o que explicaria sumiço do Rio Araguari

Cleber Barbosa
Para a Revista Diário

Muito se fala a respeito das mudanças ambientais do planeta e o quanto isso afeta – e ainda vai afetar – a vida das pessoas. Por aqui, na Amazônia, as alterações também são percebidas e da mesma forma geram debate. Até o maior rio do mundo, o Amazonas, vira objeto de discussão, como também especulação. Mas, no começo do ano, Macapá sediou um evento de cunho científico, o I Seminário Nacional de Territórios, Ordenamento e Representação, promovido pela Universidade Federal do Amapá, com apoio de diversas instituições, dentre elas o CNPQ (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Gente que esteve lá saiu preocupado com as informações a respeito do nosso rio-mar.
Convidado a palestrar no seminário, o geólogo e advogado Antônio Feijão diz ter sido uma rara oportunidade de se ter um extrato científico com todo um trabalho de amostragem de coletas científicas e estudos históricos a respeito de nossos mananciais hídricos. Feijão destaca que recentemente as notícias do fim da pororoca do Rio Araguari tiveram grande repercussão no Brasil e até fora dele. Mas não foi um problema pontual, pois até mesmo o Rio Amazonas dá sinais de sofrer com o assoreamento dos rios da maior bacia hidrográfica.

Origens
Fazendo um recorte sobre o caso do Rio Araguari, Antônio Feijão diz que desde sua nascente, nas montanhas do Tumucumaque, este rio percorre 550 quilômetros e movimenta 280 milhões de metros cúbicos de água. “Mas as hidrelétricas retiveram essa água e tiraram a força do rio; além disso, os búfalos ou seus criadores recortaram canais e agravaram ainda mais o problema”, diz ele. Explicando a dinâmica do rio, o geólogo lembra que o Araguari fazia esse trajeto sem nenhum anteparo ou barreira natural, chegando forte para enfrentar o Oceano. “Isso ajudava a aliviar também as correntes e os sedimentos que chegavam a regiões como o Bailique, que hoje também enfrenta problemas de assoreamento”, acrescenta, para exemplificar mais efeitos desse gigantesco problema.

Recuo das águas do Rio Araguari já supera 80 quilômetros
As constatações da comunidade científica a respeito das transformações provocadas pela intervenção do homem na natureza do Amapá são de fato preocupantes. Testemunha ocular do seminário que discorreu sobre o tema, o geólogo Antônio Feijão diz de forma lúdica, como se dá a batalha entre os rios Amazonas e Araguari. “Embora a gente pense que o Rio Amazonas seja um ser de paz, ele é mesmo de guerra e o Oceano Atlântico também”, diz ele.
O próprio Oceano Atlântico, que tem sua posição consolidada a uma centena de milhões de anos, não aceita qualquer desafio. “E parte para cima também, portanto é esse duelo que está implicando em grandes transformações como na vida do homem.
O geólogo explica que antigos registros, como as publicações do pesquisador e navegador francês Charles La Condamine (1701-1774) já mostravam a pujança do Araguari, que considerava ter “duas bocas”. Mas o rio e até mesmo toda uma rede de furos, igarapés e rios menores como o Gurijuba, que tinham uma conexão sazonal com o Araguari, foram invadidos pelo Amazonas. “Agora são rios  com mais de trezentos metros de largura e com profundidades superiores a vinte metros, com a maré indo lá dentro onde era o antigo leito do Araguari”, narra Antônio Feijão.
Por fim, ele diz que pesquisadores como a professora Valdenira Ferreira consideram que nada agora pode ser feito para frear isso. “Nessa luta de um gigante com pigmeus é difícil o Amazonas não vencer, não tem como você conter o maior rio do mundo”, pondera. Já o professor Admilson Torres, do Iepa, diz que já são mais de 16 as ilhas da região que estão perdendo território e que poderemos ter salinização chegando até a Região dos Lagos, provocando profundas mudanças de vida em toda a região do Delta do Amazonas.

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